Reconto de Felicidade Clandestina, Clarice Lispector. O outro lado da história.


Como odiava tudo aquilo! Relembrar os meus tempos de criança, quando morava em Recife, é algo que evito fazer. Eu sempre fui uma menina feia, gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos. Meu corpo já desenvolvido para a idade, mostrava seios de mulher sob a blusa fina. Era alvo fácil das piadas das menininhas da sala. Todas elas horrivelmente magrinhas, de cabelos lisinhos, riso fácil, amiguinhas umas das outras, sempre faziam rodinha me excluindo das conversas. E como se não bastasse, às vezes olhavam para mim e riam à beça! Minha vontade era de socar a cara de cada uma delas. Mas qualquer reclamação àqueles tempos de colégio, era tido como desobediência às normas da escola. Então, minha única saída era vingar-me na hora do recreio, quando passava perto delas de cabeça erguida e chupando minhas balas, fazendo muito barulho para mostrar o que eu tinha e elas não.

Sorte minha ter sido bem-nascida. Pelo menos meu pai era dono de livraria e ganhava um bom dinheiro com isso. Toda semana dava-me uns trocados para comprar doces, os quais eu levava e comia tudo na hora do lanche, sob os olhares invejosos daquelas raparigas.

Teve um dia em que levei pão doce recheado de doce de leite, algo bem caro naquela época. Sentei-me bem no meio do pátio, desembrulhei o lanche e comecei a comer. Percebi olhares ensalivados olhando para mim e continuei comendo, sentindo uma dupla satisfação. Quando, de repente, uma menina veio na minha direção. Eu estava certa de que ela iria me pedir um pedaço, então tratei de enfiar tudo logo na boca. De bochecha cheia e o recheio escapando pelos cantos da boca, olhei para ela sorrindo maliciosa. A menina com cara de decepção, passou por mim para disfarçar.

Bem feito! Queria ser amiga só na hora do lanche? Preferia ficar sozinha.

Tinha uma menina em especial que fazia parte dessa rodinha odiosa de meninas que me desprezavam, mas ela parecia inofensiva. Ela ficava toda hora me pedindo livros emprestado. Acho que queria muito ser minha amiga só porque meu pai era dono de livraria, com certeza ela nem ligava para mim, pois o que ela queria mesmo eram os livros. Ah, que raiva! Por que não pede pras amiguinhas nojentinhas dela? É claro que eu sempre dava uma desculpa, pois queria que ela sofresse também. Dava-lhe falsas esperanças de que eu iria emprestar o livro, mas quando chegava o dia de emprestar eu falava ou que não tinha achado ou que já estava emprestado ou que, simplesmente, tinha me esquecido.

Um dia, de tanto ela me encher, pedi que fosse à minha casa que era um pouco longe. Achei que ela não iria, mas como era insistente essa sirigaita! Pois acreditem, ela foi! E por três dias seguidos, lá estava ela batendo na minha porta querendo o tal do livro emprestado. Eu estava disposta a testar os limites dessazinha aí e iria ver até quando ela teria paciência de vir na minha casa me importunar, arre!

Só que no quarto dia, infelizmente, minha mãe ouviu toda a nossa conversa porque, na verdade, ela já estava desconfiada da menina estar indo lá todo santo dia e foi espiar o que estava acontecendo. Pois bem, minha mãe se intrometeu na conversa e estragou todo o meu plano, dizendo que o livro já estava em casa fazia alguns dias e que eu tinha sim que emprestá-lo e, ainda por cima, ela poderia ficar com o livro por quanto tempo ela quisesse! Que desaforo, eu tive que dar o livro emprestado! 

Fiquei com tanta raiva de ver a menina sair com o livro abraçado e saltitando de felicidade, que eu resolvi que isso não ia ficar assim: haveria de pegar esse livro de volta. 

Eu já não era mais uma menina com raiva, era uma mulher preparando-se para a luta!


 

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